A crise do hotavírus

Deu no jornal que a cidade de Porto Alegre, onde moro, passou a registrar incidência de um tal de hotavírus bem acima da média dos anos anteriores. Confesso que não li a matéria com o cuidado devido, mas nos últimos quatro dias já me pós-graduei no tema. Ter hotavírus significa praticamente morar próximo a uma latrina: febre, cólicas horrorosas, e muito senta-levanta.

Ontem pela primeira vez melhorei um pouquinho. Me alimentei melhor, as dores estomacais diminuíram, embora a freqüência de senta-levanta seja ainda elevadíssima. Ainda não consegui produzir um gráfico sobre o assunto. Mas no passeio que dei pelo pátio do condomínio encontrei um vizinho de porta, sujeito camarada, modelo armário de repartição pública. Quase 2 metros de altura por 70 centímetros de largura. E que perdeu a opulenta pança de tempos atrás. Perdeu a compleição Jô Soares e ganhou yma nova versão Gianechini, tudo por conta do hotavírus. A patroa tá contente.

Quando descrevi minha situação já num desabafo quase desesperado, senti nele uma risadinha de canto de boca, um certo deboche e também um alívio do tipo. “Não fui só eu”. Aí veio a narrativa dramática quase confessional. O camarada havia ficado quinze dias entre a cama e o banheiro. Saía tudo por cima e por baixo, febre de 39 graus centígrados. Descobri então que esse tal de hotavírus pode te pegar de jeito ou de jeitinho, Me senti um privilegiado.

Numa pesquisa mais apurada tomei conhecimento de que uma integrante da mais alta corte do estado também adquiriu o hota versão 15 dias e teve de dar uma esticadinha em hospital. Imaginem o constrangimento numa sessão do pleno. Ainda bem que funcionário público tem direito a licenciar-se numa situação dessas.

Já fazia três dias que minhas pequenas manifestações de febre já não ocorriam, as dores abdominais estavam parcialmente controladas, embora as visitas ao banheiro deveriam ser monitoradas por sensores eletrônicos, pois não tenho condições de contá-las mentalmente. Que pena, acho que perdi a oportunidade de entrar para o Guiness Book.

Mas ao entender agora o que seja esse tal de hotavírus fico a me perguntar como está a situação na cidade neste momento. Como aquelas pessoas que precisam trabalhar direto caminhando nas ruas se viram. Os constrangimentos. O sujeito caminha pela rua e vem uma cólica própria das mulheres.

Ele aperta as mãos contra a barriga e pronuncia um aiii!, que dor. Um mico gastroentestinal. E as mulheres? como mais ou menos convivem com o problema mensalmente ao longo de boa parte da vida, devem ter pelo menos uns dez planos diferentes para disfarçar a situação. Diplomáticas que são, nessas horas.

Porto Alegre é uma cidade repleta de lugares à espera de banheiros públicos decentes, o cidadão possa sentar o traseiro e produzir aquele alívio imediato sem o trauma de sair do local com a privacidade devassada por um travesti ou sem adquirir uma clamídia, candidíase, ou outra dessas porcarias que se pega em assento de latrina terceiro mundista.

Os departamentos de desenvolvimento da indústria de transformação parecem ter perdido a oportunidade ditada pelo mercado: poderiam ter aproveitado o ensejo para produzir latrinas-mochilas, latrinas dobráveis, uma sacola descartável com alguma estrutura interna para permitir a evacuação sem constrangimentos na camuflagem do Marinha do Brasil e do Parque Farroupilha.

Enfim, Porto Alegre não estava preparada para o surto de hotavírus, assim como o governo e a Infraero não montaram estrutura apropriadas à expansão do transporte aéreo de passageiros no país. Me pergunto como está a freqüência de porto-alegrenses à espera de embarque nos banheiros do Aeroporto Salgado Filho. Será que as instalações dão conta? Sei não. Com licença, o bath room me chama.

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